Sábado, 12 de Abril de 2008

Maria na Tradição da Igreja: pequena visão histórica

Eis um bom resumo histórico efetuado por d. Cirilo Folch Gomes, em Riquezas da Mensagem Cristã (Ed. Lumen Christi, pp. 435-437):

A Igreja, em 20 [21] séculos de História, sempre refletiu com amor sobre o mistério de Maria e atesta experimentar sua presença efetiva, manifestada em numerosas aparições e na correspondência ao culto público e privado dos fiéis.

Vamos considerar aqui o desenvolvimento da doutrina marial, cujas bases estão nos mais antigos Padres e da qual o Vaticano II oferece, na "Lumen gentium", uma admirável síntese.

Nos Padres, a reflexão versou, antes de tudo, sobre Maria no mistério da Anunciação e do Natal, destacando seus predicados de Nova Eva e figura da Igreja, bem como o conteúdo doutrinário da Maternidade Divina e Virginal.

O paralelismo Eva-Maria é utilizado desde o século II, para recordar que uma e outra foram criadas imaculadas, "virgens", e para opor suas atitudes: Eva cooperou para nossa ruína; Maria, para a nossa Redenção. São Justino, Santo Ireneu e Tertuliano, pouco depois, são os principais divulgadores dessa comparação, provavelmente originária das Igrejas da Ásia, talvez desde São João Evangelista, a quem se deveria então o complemento da antítese paulina Adão-Cristo.

Maria, ao contrário de Eva, a virgem desobediente, foi dócil à Palavra de Deus, tornando-se
"para si e para todo o mundo causa de salvação", diz Santo Ireneu. Mais adiante, a comparação se elabora também a partir da idéia de "mãe dos viventes", significação do nome "Eva" (Gen. 3,20). Escreve, por exemplo, Santo Epifânio (+403):

"Numa consideração exterior e aparente, dir-se-ia que de Eva derivou a vida (...) Na verdade, é de Maria que deriva a verdadeira vida para o mundo; é ela que dá à luz o Vivente; é ela a Mãe dos viventes".

Maria é comparada também à Igreja. Os Padres viram entre ambas a continuidade de um mesmo mistério, representando Maria o começo do que se passa na Igreja, sendo seu "tipo":
"a Igreja imita Maria", "a Igreja é semelhante a Maria". Se a perspectiva é principalmente a da causalidade exemplar, não faltam sugestões - e já desde Santo Ireneu - na linha do que depois se chamará a Maternidade Espiritual, a cooperação dada pela Virgem à geração espiritual dos fiéis, seu papel de "Mãe dos viventes", visto porém mais à luz do "Fiat" [Faça-se] da Anunciação do que da participação no Calvário. Aceitando ser Mãe do Salvador, Maria "cooperou com sua caridade a fim de que os fiéis nascessem na Igreja" (Santo Agostinho).

A Mariologia dos Padres se concentra principalmente na Maternidade Divina e Virginal. Os "três mistérios de clamor" (isto é, que devem ser anunciados a todo o mundo) são, para Santo Inácio de Antioquia,
"a virgindade de Maria, seu parto e a morte do Senhor".

A expressão "Theotokos" [Mãe de Deus], que surge no século III, talvez proveniente de Orígenes, difunde-se quase como senha da fé, sobretudo a partir de São Cirilo de Alexandria, que a fez consagrar no Concílio de Éfeso, em 435.

O caráter virginal da concepção de Cristo sinaliza a maravilha que é a Encarnação. Indica a filiação divina do Senhor. A virgindade imaculada, da geração no tempo, reflete o esplendor da eterna geração.

A virgindade perpétua de Maria, suposta pelos mais antigos Padres, torna-se explicitamente defendida como verdade de fé por ocasião da opinião contrária, emitida no século IV. E paralelamente vão crescendo na consciência cristã outras percepções da fé, como a da santidade sublime e perfeita da Virgem, seu trespasse glorioso, sua intercessão celeste.

No tempo carolíngio e medieval, de par com o grande desenvolvimento no culto litúrgico de Nossa Senhora, a reflexão se volta para as verdades da Assunção, da Imaculada Conceição e da Mediação de graças. No Oriente, destacam-se, no século VIII, os brilhantes escritos mariológicos de São Germano de Constantinopla, Santo André de Creta e São João Damasceno. No Ocidente, se avultarão, daí por diante, nomes como os de Pascásio Radberto, Ambrósio Autperto, Alcuíno, Santo Anselmo, São Pedro Damião, São Bernardo, Santo Alberto Magno, São Boaventura, São Tomás, o bem-aventurado Duns Scoto e muitos outros. É a época em que se cultua a "Rainha do Céu", a "Mãe de Misericórdia", a "Mãe das Dores", se considera sua presença atuante na vida sacramental, sua relação à Eucaristia, sua "onipotência suplicante", surgindo na liturgia peças como a "Salve Rainha", "Salve Sancta Parens", "Stabat Mater" etc., e as invocações sublimes de São Bernardo, tais como a do "nome de Maria", o "Memorare" etc.

Na Idade Moderna, os temas são principalmente a Imaculada Conceição, que cada vez mais se afirma como verdade de fé, e a parte de Maria na Redenção. Sobressaem, nos séculos XVII e XVIII, os escritos de São João Eudes, São Luís Grignion de Montfort e Santo Afonso de Ligório.

Nos séculos XIX e XX ocorrem as duas definições dogmáticas: em 1854, da Imaculada Conceição; e, em 1950, da Assunção corpórea. Época de várias aparições: Lourdes, La Salette, Medalha Milagrosa, Fátima, Pontmain... Numerosas encíclicas e alocuções pontifícias versam sobre o Rosário, o Culto Marial, a Dispensação das Graças por Maria, a Maternidade Divina, a Realeza, o Imaculado Coração. Desenvolve-se a teologia da "co-redenção" e da mediação de todas as graças. Paulo VI proclama solenemente o título de "Mãe da Igreja", no encerramento da 3ª Sessão do Concílio Vaticano II, em novembro de 1964. A este Concílio se deve, na "Lumen gentium", uma síntese da doutrina mariológica, onde em resumo se diz o seguinte:

A Virgem Maria está no âmago do Mistério de Cristo e da Igreja, pois Deus quis que Cristo, Cabeça da Igreja, nascesse de suas entranhas. Prenunciada no Antigo Testamento, a Virgem é apresentada no Novo como aquela que aceitou ser a cooperadora do desígnio divino da Redenção e a perene associada de todo o itinerário de Jesus Cristo. Por isso, é venerada como a Mãe dos Fiéis, na ordem da graça, experimentando a Igreja sua contínua intercessão materna. Maria deve ser dita ainda, por todo o mistério que nela se realizou, e por sua vida evangélica, o tipo da Igreja e o exemplar dos fiéis. Deve ser-lhe tributado um culto especial, embora essencialmente distinto da adoração que se presta a Deus e a Cristo. Finalmente, em Maria a Igreja vê sempre seu sinal de esperança e conforto.

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